Monday, June 12, 2006

JOSÉ MARINHO (1904 - 1975)

José Marinho representa uma nova e radical etapa filosófica em Portugal. Constituindo uma das figuras mais destacadas do pensamento filosófico Português. As suas ideias condensam um pensamento robusto, inédito e poderoso ao qual não podemos ser indiferentes sob pena de nos escapar uma possibilidade de crescermos filosoficamente no tempo a que fomos chamados a viver. O Pensar português não poderia deixar de fazer as honras a um tão eminente e prolixo pensador português.
Nascido e criado na cidade Invicta, Marinho cedo foi marcado por uma determinada vivência muito própria do Porto que viria a marcar a sua personalidade e visão do mundo. O modo franco, dialógico e exteriónico que pautava a sociabilidade portuense cedo lhe criaram a convicção e um gosto particular pelo diálogo.
Em 1920 entra na Faculdade de Letras do Porto para frequentar o curso de Filologia Românica, tornando-se extremamente activo e envolvido na vida académica, rapidamente se destacou pela sua inteligência e eloquência, envolvendo-se em projectos como O Carrocha ou A nossa Revista, onde pôde publicar artigos e poemas muitos deles em homenagem ao seu Mestre.
Durante a sua estada na Faculdade, que incluiu de igual forma uma passagem pelo curso de Filosofia, teve inúmeras oportunidades de conviver com aqueles que iriam influenciar a sua formação filosófica futura, entre eles; Teixeira Rego, Luís Cardim ou um Hernâni Cidade, mas acima de tudo, o seu grande mestre, Leonardo Coimbra que representava para ele a grande figura que o influenciará decisivamente no seu percurso metafísico. De igual modo conviverá com semelhantes de estudo como Agostinho da Silva, Álvaro Ribeiro ou um Sant´Anna Dionísio para citar apenas alguns.
Apaixonado pela poesia de Teixeira de Pascoaes, apresenta, como tese de final de curso, uma dissertação intitulada; Ensaio sobre a obra de Teixeira de Pascoaes, revelando já uma acuidade e visão metafísica na sua interpretação, bem como uma definição prévia de um gosto por um certo visionarismo profético e denunciando claramente uma ontológica tão característica de Marinho.
Tendo leccionado logo a seguir a completar a Faculdade, Marinho terá oportunidade de começar a redigir os seus Cadernos de Reflexão sobre Cultura e Vida, onde verte já as suas reflexões acerca de uma miríade de assuntos, denunciando a influência tanto da literatura como de uma atenta leitura de Filósofos como Platão, Descartes, Espinoza ou um Kant, bem como Bergson, Jean Piaget ou Whitehead, entre outros.
Estas reflexões pessoais servirão mais tarde de ponto de partida para a redacção da sua obra Aforismos sobre o que mais importa, que constituirá a sua primeira objectivação de um pensamento e visão filosófica próprio.
Passando por inúmeros estabelecimentos de província entre 1931 e 1937, Marinho vai se dedicando às questões que mais lhe são caras, as quais pôde iniciar no seu livro de aforismos, dedicando para este efeito uma série de textos intitulados: Ensaios de Aprofundamento, tendo sido alguns publicados pela Seara Nova.
Nunca olvidando toda uma realidade política, social, psicológica ou cultural de seu tempo, Marinho foi se mantendo, contudo, à margem da intervenção política entregando-se antes as suas questões metafísicas.
Aquando da morte de Leonardo Coimbra, Marinho retoma, tomado pela dor do desaparecimento de seu mestre, a redacção de um texto interpretativo do pensamento filosófico do seu Mestre - O Pensamento Filosófico de Leonardo Coimbra.
A partir de 1940, instala-se em Lisboa, devido às dificuldades de trabalho no Porto, onde irá sistematizar as suas ideias mais profundas, em particular na sua obra Significado e Valor da Metafísica (1943) onde constitui uma apologia da metafísica contra uma perspectiva neopositivista dominante. Este intento apologético e contrário à do neopositivismo terá o seu ponto alto na sua obra de referência Teoria do Ser e da Verdade.
A sua estada em lisboa permitiu-lhe o contacto com outros intervinientes intelectuais de seu tempo como; Vergílio Ferreira, José Gomes Ferreira ou Natália Correia, entre outros.
Marinho escreveu inúmeros textos concernentes ao tema acerca da filosofia portuguesa, incluíndo textos acerca de Sampaio Bruno ou Guerra Junqueiro, entre outros.
Em 1947, Marinho entrega-se ao projecto de Nova Interpretação do Sebastianismo, tendo sido abandonada, entre outras, para abraçar a sua obra Teoria do Ser e da Verdade.
Em 1961, Marinho é convidado por Delfim Snatos a integrar o Centro de Estudos Pedagógicos da Fundação Calouste Gulbenkian, onde permanenceu até à sua morte a 3 de agosto de 1975, por motivo de doença já antiga.
Em 1974, pouco tempo antes de seu falecimento, Marinho encontrava-se, contudo, empenhado na sua obra derradeira; Verdade, Condição e Destino do Pensamento Portugês, na qual mantinha aquele empenhamento no movimento de reabilitação da «filosofia portuguesa».
Em 1981, a família viria a depositar todo o seu espólio na Biblioteca Nacional de Lisboa onde, juntamente com a sua biblioteca pessoal doada mais tarde, prosseguem os trabalhos de estudo, organização e publicação de muitos textos inéditos.

(evento 2004 Biblioteca Nacional) http://www.bn.pt/agenda/evento-jmarinho.html

Tuesday, March 21, 2006

FERNANDO GIL 1937-2006



Fernado Gil morre em Paris aos 69 anos, vítima de doença prolongada. É com grande pesar que o Pensar Português publica um artigo anunciando, infelizmente, uma morte. José Gil, pensador original e controverso,professor, tradutor, ensaísta e personalidade ímpar do pensamento contemporâneo português. Devemos à sua dedicação nas academias portuguesas por libertar a filosofia do jugo do provincialismo e da sua desvalorização. Em 1961, após concluir a sua licenciatura em direito, publica o que seria a sua primeira e já impressionante obra: "Aproximações Antropológicas". Nesta obra podia-se encontrar um dos primeiros estudos acerca da fenomenologia de seu tempo, especificamente um estudo comparativo entre M.Ponty e J. P. Sartre, onde admiravelmente o autor se debatia a partir dos compromissos políticos de Sartre. Igualmente em 1961, Gil é admitido na Universidade da Sorbonne, onde frequenta o 3º Ciclo de Iniciação à Filosofia sobre a direcção de Suzanne Bachelard, filha de Gaston Bachelard. Este aspecto será determinante na sua formação filosófica. Em 1971 conclui a sua tese de Doutoramento em Lógica, com o título: "A Lógica do Nome" ( La Logique Du Nom, France 1972), essa mesma cuja equivalência não seria conferida em portugal, trazendo alguns dissabores entre outros Filósofos sedentos de "afastar" Gil da sua posição como professor na Universidade Nova).Inclusive, Gil nesta sua tese, chega a antecipar o conceito de Designadores Rígidos, que mais tarde Kripke desenvolveria. Fernando Gil trabalhou durante muitos anos como investigador associado da Unesco, elaborando inúmeros relatórios sobre as instituições e universidades na europa e suas regulamentações, o que lhe conferiu um conhecimento bastante alargado acerca da realidade do ensino na europa. Em 1976, apresenta-se em Lisboa, na Faculdade de Letras, por forma a obter uma posição como professor. Contudo, 2 anos mais tarde sairía desta instituição que, por motivos políticos e ideológicos, viu surgir uma "concorrente", onde Gil iria então estreiar o Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa. Após uma estada um tanto atribulada, devida ao facto da sua tese defendida em frança não lhe ter sido conferida equivalência, originando inúmeros atritos com outras personalidades filósoficas que o acusavam de ensinar numa universidade sem a devida qualificação ?! Gil acaba finalmente por ultrapassar este incoveniente burocrático em 1985 quando obtém então o grau de Doutor mediante uma equivalência curricular através da sua obra: "Mimesis e Negação". Esta obra consistia numa compilação de todos os seus artigos publicados através da Enciclopédia Einaudi. Com a publicação desta obra em 1984, recebe o Prémio Ensaio do Pen Club, distinção que lhe será atribuída uma segunda vez com a publicação de "Viagens do Olhar" (1998). 1993, Prémio Pessoa. Outras obras como: "Provas" (1988), "Tratado da Evidência" (1993) ou "Modos da Evidência" (1998), levam-no já a desenvolver um percurso especulativo extremamente elaborado a todos os níveis. Sendo, desde 1988, professor catedrático da Universidade Nova,iria mais tarde, em 1989, tornar-se, de igual forma, directeur d'études (grau equivalente a professor catedrático) na EHESS. Exercendo a docência por várias universidades no mundo. "A partir do Tratado da Evidência, a investigação centra-se num momento particular das preocupações epistemológicas até então desenvolvidas; em concreto, em vez de tematizar a prova, toma em atenção precisamente aquilo que a dispensa, a evidência, sem que se possa afirmar o contrário. E fá-lo introduzindo o conceito de "alucinação originária", uma hipótese forte que visa explicar o que seja a evidência. Tanto Modos da Evidência como Viagens do Olhar procuram experimentar esta hipótese, com a diferença de a segunda destas obras, em co-autoria com Hélder Macedo, o fazer no campo da literatura portuguesa renascentista (com Os Lusíadas, Menina e Moça de Bernadim Ribeiro e a poesia de Sá de Miranda). O interesse e investigação da cultura e literatura portuguesas conduziu-o ao cargo de director do Centre d'Études Portugaises entre 1990 e 1997 e do Seminário Francisco Sanches desde 1992. Além das obras individuais que assinou, dirigiu um conjunto de importantes obras colectivas (entre as quais, O Balanço do Século, 1990; Scientific and Philosophical Controversies, 1990; Philosophy in Portugal, a Profile, 1999; A Ciência tal Qual se Faz, 1999) e publicou para cima de 150 estudos, escritos em diferentes línguas, quer como artigos de revistas, quer como comunicações e apresentações a colóquios. Fundou e dirigiu a revista Análise e integra os comités de redacção de diversas outras revistas e publicações, designadamente as encicliopédias Universalis, Britannica e Einaudi (sendo o coordenador dos quarenta volumes da edição portuguesa desta última). Em virtude do seu mérito científico, internacionalmente reconhecido, foi agraciado, em 1992, com o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique, por proposta do presidente da República, Mário Soares, de quem foi aliás conselheiro especial. É também distinguido em 1993 com o Prémio Pessoa. O governo francês agraciou-o em 1995 com o título Chevalier da Ordem das Palmes Académiques. Finalmente, foi consagrado em 1998 doutor honoris causa pela Universidade de Aveiro."

In Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. 4, Lisboa 1999

PENSAR PORTUGUÊS


Pintura de Henrique Gabriel

Dedicado exclusivamente ao pensamento português, este será um espaço onde a filosofia portuguesa poderá expressar o pensamento de ontem, de hoje e de amanhã. A pensar particularmente na nova geração de filósofos portugueses, aqui poderão os estudantes e professores de filosofia manifestar os seus conhecimentos e acima de tudo o seu próprio pensamento filosófico, ajudando a construir uma ideia mais robusta e concisa do que é realmente o pensamento português e dissipar, se tal for o caso, o desconhecimento do público em geral de uma filosofia muito própria que é a nossa. Conto com a vossa ajuda, no intuito de garantir para as gerações vindouras um maior entendimento do pensar português, e, acima de tudo, estimular o filosofar.