Fernado Gil morre em Paris aos 69 anos, vítima de doença prolongada. É com grande pesar que o Pensar Português publica um artigo anunciando, infelizmente, uma morte. José Gil, pensador original e controverso,professor, tradutor, ensaísta e personalidade ímpar do pensamento contemporâneo português. Devemos à sua dedicação nas academias portuguesas por libertar a filosofia do jugo do provincialismo e da sua desvalorização. Em 1961, após concluir a sua licenciatura em direito, publica o que seria a sua primeira e já impressionante obra: "Aproximações Antropológicas". Nesta obra podia-se encontrar um dos primeiros estudos acerca da fenomenologia de seu tempo, especificamente um estudo comparativo entre M.Ponty e J. P. Sartre, onde admiravelmente o autor se debatia a partir dos compromissos políticos de Sartre. Igualmente em 1961, Gil é admitido na Universidade da Sorbonne, onde frequenta o 3º Ciclo de Iniciação à Filosofia sobre a direcção de Suzanne Bachelard, filha de Gaston Bachelard. Este aspecto será determinante na sua formação filosófica. Em 1971 conclui a sua tese de Doutoramento em Lógica, com o título: "A Lógica do Nome" ( La Logique Du Nom, France 1972), essa mesma cuja equivalência não seria conferida em portugal, trazendo alguns dissabores entre outros Filósofos sedentos de "afastar" Gil da sua posição como professor na Universidade Nova).Inclusive, Gil nesta sua tese, chega a antecipar o conceito de Designadores Rígidos, que mais tarde Kripke desenvolveria. Fernando Gil trabalhou durante muitos anos como investigador associado da Unesco, elaborando inúmeros relatórios sobre as instituições e universidades na europa e suas regulamentações, o que lhe conferiu um conhecimento bastante alargado acerca da realidade do ensino na europa. Em 1976, apresenta-se em Lisboa, na Faculdade de Letras, por forma a obter uma posição como professor. Contudo, 2 anos mais tarde sairía desta instituição que, por motivos políticos e ideológicos, viu surgir uma "concorrente", onde Gil iria então estreiar o Departamento de Filosofia da Universidade Nova de Lisboa. Após uma estada um tanto atribulada, devida ao facto da sua tese defendida em frança não lhe ter sido conferida equivalência, originando inúmeros atritos com outras personalidades filósoficas que o acusavam de ensinar numa universidade sem a devida qualificação ?! Gil acaba finalmente por ultrapassar este incoveniente burocrático em 1985 quando obtém então o grau de Doutor mediante uma equivalência curricular através da sua obra: "Mimesis e Negação". Esta obra consistia numa compilação de todos os seus artigos publicados através da Enciclopédia Einaudi. Com a publicação desta obra em 1984, recebe o Prémio Ensaio do Pen Club, distinção que lhe será atribuída uma segunda vez com a publicação de "Viagens do Olhar" (1998). 1993, Prémio Pessoa. Outras obras como: "Provas" (1988), "Tratado da Evidência" (1993) ou "Modos da Evidência" (1998), levam-no já a desenvolver um percurso especulativo extremamente elaborado a todos os níveis. Sendo, desde 1988, professor catedrático da Universidade Nova,iria mais tarde, em 1989, tornar-se, de igual forma, directeur d'études (grau equivalente a professor catedrático) na EHESS. Exercendo a docência por várias universidades no mundo. "A partir do Tratado da Evidência, a investigação centra-se num momento particular das preocupações epistemológicas até então desenvolvidas; em concreto, em vez de tematizar a prova, toma em atenção precisamente aquilo que a dispensa, a evidência, sem que se possa afirmar o contrário. E fá-lo introduzindo o conceito de "alucinação originária", uma hipótese forte que visa explicar o que seja a evidência. Tanto Modos da Evidência como Viagens do Olhar procuram experimentar esta hipótese, com a diferença de a segunda destas obras, em co-autoria com Hélder Macedo, o fazer no campo da literatura portuguesa renascentista (com Os Lusíadas, Menina e Moça de Bernadim Ribeiro e a poesia de Sá de Miranda). O interesse e investigação da cultura e literatura portuguesas conduziu-o ao cargo de director do Centre d'Études Portugaises entre 1990 e 1997 e do Seminário Francisco Sanches desde 1992. Além das obras individuais que assinou, dirigiu um conjunto de importantes obras colectivas (entre as quais, O Balanço do Século, 1990; Scientific and Philosophical Controversies, 1990; Philosophy in Portugal, a Profile, 1999; A Ciência tal Qual se Faz, 1999) e publicou para cima de 150 estudos, escritos em diferentes línguas, quer como artigos de revistas, quer como comunicações e apresentações a colóquios. Fundou e dirigiu a revista Análise e integra os comités de redacção de diversas outras revistas e publicações, designadamente as encicliopédias Universalis, Britannica e Einaudi (sendo o coordenador dos quarenta volumes da edição portuguesa desta última). Em virtude do seu mérito científico, internacionalmente reconhecido, foi agraciado, em 1992, com o grau de Grande Oficial da Ordem Infante D. Henrique, por proposta do presidente da República, Mário Soares, de quem foi aliás conselheiro especial. É também distinguido em 1993 com o Prémio Pessoa. O governo francês agraciou-o em 1995 com o título Chevalier da Ordem das Palmes Académiques. Finalmente, foi consagrado em 1998 doutor honoris causa pela Universidade de Aveiro."
In Dicionário Cronológico de Autores Portugueses, Vol. 4, Lisboa 1999 |
0 Comments:
Post a Comment
<< Home